Poema publicado na revista Cult, janeiro de 2026.


Poema publicado na revista Cult, janeiro de 2026.


Haicai – Do Japão ao Sertão. Coletânea de poemas organizada por José De Nicola e Cineas Santos [Teresina: Oficina da Palavra, 2025].
Participaram do livro: Adriano Lobão Aragão, Carlos Emílio Faraco, Cineas Santos, Climério Ferreira, Dalila Teles Veras, Demetrios Galvão, Dilson Lages Monteiro, Ernâni Getirana, Francisco Magalhães, Graça Vilhena, J.L. Rocha do Nascimento, José De Nicola, Marina Campelo, Marleide Lins, Menezes y Morais, Paulo Moura, Penélope Martins, Rogério Newton, Roseana Murray, Rubervam Du Nascimento, Suzana Vargas, Tanussi Cardoso, Thiago E e Val Melo
Que tipo de bicho é o poema? Neste livro, doze poetas transformam versos em bichos (e vice-versa). Uns miúdos, outros imensos, todos pulsando vida. Gata, girafa, formiga, lagarta, passarinho, tigre, borboleta… cada criatura se reinventa em palavra. Leia devagar: pode ser que uma joaninha resolva acompanhar a leitura pousando no seu ombro. Se preferir, pode até colorir. [Adriano Lobão Aragão / Thiago E]
⸻
uma zoologia poética
A coletânea de poemas, a ser lida a seguir, reúne doze poetas contemporâneos, arregimentados do Piauí, do Maranhão e da cubana Pinar del Rio. A aliança pretende nos dizer da vitalidade, da atenção ao sopro da poesia de nosso tempo. Além disso, “o poema é o bicho” aprofunda a escolha e traz todos os poemas encilhados em mimese zoológica, sumarizando uma espécie de bestiário poético. A mobilidade verbal dos poemas investe na percepção diante dos bichos e seus condicionantes biológicos, suas curiosidades instintivas, além de lhes serem dadas outras atribuições semânticas e imagéticas pelo olhar do(a) poeta, inspecionando assim nosso irresoluto dialético entre natureza e cultura.
Outra concentração aqui encontrada atende à poética da brevidade. A concisão, a celebração da síntese como conduto estrutural do poema, o breve contrapondo-se ao caudal lírico são a fatura resultante. Alguns assumem as lições dos poetas japoneses Bashô e Issa com a essencialidade do haicai, essa tradição que se espalha há tempos pelo poema brasileiro e que já ganhou dicção pindorâmica. E como a língua portuguesa não dispõe de escrita ideogramática para a possibilidade visual do poema, a coletânea recorre ao signo gráfico como representação, cada poema recebe sua nomeação iconográfica. Aos cuidados de Adriano Lobão, os traços também avultam em concisão e seguem a economia de informação, trazendo a figuratividade no contorno e no residual do grafismo em preto e branco.
Esta apresentação seguiu também a sintaxe da brevidade, restando ao leitor e leitora a complementaridade com a recepção a esta fauna poética.
Feliciano Bezerra
Professor de literatura (UESPI),
cantor e compositor
⸻
O poema é o bicho. Coletânea de poemas organizada por Marleide Lins e Thiago E, com ilustrações de Adriano Lobão Aragão [Teresina: AvantGarde, 2025]. Participaram do livro: Adriano Lobão Aragão, Aliã Wamiri Guajajara, Cineas Santos, Demetrios Galvão, Laís Romero, Luiza Cantanhêde, Marian Campelo, Marleide Lins, Nelson Simón, Sergia Alves, Thiago E e Wanderson Lima.

haikais e quase-canções
O Piauí é o estado brasileiro com o maior percentual de casas com gatos. Segundo o IBGE, são 32,6% das residências abrigando, pelo menos, um chanin. Basta dar uma volta em Teresina. Eles estão em todo lugar.

A partir de sua convivência com os bichanos, o poeta e músico Thiago E escreveu o livro “Os gatos quando os dias passam” (7Letras). Além de poemas, a publicação também traz várias fotografias dos felinos feitas pelo autor. A exposição FOTÓGATO: haikais e quase-canções apresenta boa parte desse processo. Os textos expostos buscam fazer um diálogo com a felinidade dos gatos. São poemas curtos ou ataques? O poema é uma espécie de canto? O poema longo é como o sono? É uma sintaxe quebrada ou a imprevisibilidade do sonho? A exibição também conta com textos do livro “Cabeça de sol em cima do trem [remix]”, marcado pela variedade como apresenta as possibilidades do poema, explorando a música da língua.

Originalmente, a palavra haikai tinha o sentido de “cômico”. O ideograma hai (俳) significa “bufonaria”, “pantomima”. E também está na palavra haiyū, que significa “ator”, em japonês. Sabe quando a gente se surpreende e diz “engraçado…”, mesmo sem vontade de rir? O haikai também mantém esse sentido. É um poema feito com poucas palavras e costuma quebrar nossa expectativa. Sua forma foi consolidada no Japão de séculos atrás, uma cultura muito diferente da nossa. Logo, pode causar certo estranhamento ao que costumamos chamar de poesia. Porém, que tal tentar entender o estranhamento?

O haikai ensina novas maneiras de percepção de si, do mundo. Escrito com vocabulário simples, tem duas partes em justaposição que se complementam indiretamente. É uma forma de meditação com a passagem das estações, uma disciplina com a permanente impermanência, um caminho para “apenas estar desperto”, evidenciando seu substrato budista, pois leva quem escreve a se integrar com as mínimas formas de vida ao redor.


E, Thiago. Os gatos quando os dias passam. Rio de Janeiro: 7Letras, 2021.
_________________
Compasso |
talvez | por amor à música
teria a gata | uma pauta
:
compor | só os sons necessários
ser a duração da pausa |
_________________
Os gatos quando os dias passam
[ segunda ]
a gata
só ama com as unhas:
o afeto destrói
alguns móveis da sala.
*
[ terça ]
coração selvagem:
chega
pisa
pesa
azunha –
felinos ferem para confiar
*
[ quarta ]
noite quente:
um gato deitado
no teto do carro.
a leitura
dura
um pulo!
Gatos são haikais?
*
[ quinta ]
poemas de pelos:
a leitura
dura
um pulo –
gatos ou haikais?
*
[ sexta ] às 7h15
sofá no monturo:
de bruços
a gata da rua
faz sala pro mundo
( às 14h )
das patas
das gatas
surgem agulhas:
máquina de descostura
*
[ sábado ] tanka às 17h
a gata boceja
estirada
no meu colo:
um rabo-de-tesoura
corta o céu da tarde
*
[ domingo ]
shhh… felinos dormem
setenta por cento
do tempo:
realidade e sonho
o gato não separa
Thiago E nasceu em Teresina, Piauí. É filho da Neide e do Zorro. Publicou Cabeça de sol em cima do trem (disco e livro). Foi um dos criadores da revista Acrobata. Integrou por 12 anos a banda Validuaté, com a qual lançou os álbuns Pelos pátios partidos em festa; Alegria girar; Este lado para cima; e Validuaté ao vivo.
E, Thiago. Cabeça de sol em cima do trem. Teresina: Corsário, 2013.
.
.
_________
.
p